Festival Politica

Festival Política. O povo não quer só pão e circo

 

 

Parte da sociedade civil um festival que afirma: “Tudo é política”. Do cinema ao teatro, da poesia à pintura, foram várias as ferramentas que muniram o evento inédito no País, o qual surge para combater o desinteresse dos eleitores. Durante os dois dias do Festival Política, discutiram-se medidas para reduzir a abstenção e houve até tempo para um frente a frente com deputados. Uma reportagem de Ana Catarina Monteiro

 

Ouvem-se palavras de ordem na Rua Garret. “Vão votar! Vão ao Festival Política!”, grita de megafone ao punho o poeta Nuno Moura. No alto de uma escada empoleirado, vocifera versos que contam a história da cultura política da sociedade portuguesa. Essa que é assombrada pelo monstro da abstenção, o qual não parou de crescer desde as primeiras eleições democráticas após a revolução dos cravos. “Abram essa garganta. Vão votar! Vão ao Festival Política!”. Os curiosos vão parando e recebem jornais que dão conta do que se avizinha. Arranca amanhã, pela primeira vez em Portugal, uma jornada de debates, workshops, exposições e sessões de cinema e teatro, com a qual se pretende reaproximar a política de miúdos e graúdos.

Dia 1
Sexta-feira, dia 20 de abril de 2017. São 17h30 e a plateia já se acomodou na sala 2 do Cinema São Jorge. No palco sentam-se representantes de diferentes gerações e classes profissionais. Não foram escolhidos ao acaso para virem ao Festival Política debater o fenómeno da abstenção. Marina Costa Lobo é politóloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Enfatiza o desinteresse dos portugueses pela política, o que se tem vindo a agravar “desde 2007”. Diz que há muitos eleitores que se interessam mas que não se identificam com nenhum partido. Porém, o que realmente a apoquenta são as pessoas que simplesmente não querem saber, não leem jornais, não se informam. Em cima da mesa coloca o conceito de “espiral do silêncio”, que começa com a desconfiança dos portugueses em relação aos políticos, o que gera raiva mas acaba por culminar no silêncio perante as urnas, na falta de combate. Por sua vez, como a abstenção é tão alta, os partidos “têm medo da mudança”. Não querem perder mais votantes.

Os portugueses são mansos?

Será que somos “mansos”? A pergunta do humorista Fernando Alvim, que assume a função de moderador do debate, faz a Jornalista e Editora de política da Antena 1, Maria Flor Pedroso, erguer a voz para recordar o movimento “Que se lixe a Troika”, surgido em 2011. Lembra-se de duas manifestações, em Lisboa e no Porto, que puseram mais de um milhão de pessoas na rua a protestar contra a austeridade, durante anterior Governo.
Citando o “Capitão de Abril” Salgueiro Maia, a Jornalista volta a 1974 para destacar o momento em que Marcelo Caetano percebeu que havia deixado de ter poder. Foi no instante em que ouviu o povo nas ruas a cantar o Hino nacional “afinadamente”, sublinha. De facto, quando o povo se organiza, apodera-se da governação e, para a Jornalista, a abstenção não passa de um incompreensível “capricho da democracia”.

A discussão passa para o lado direito do palco, onde está representada a faixa etária que mais baixos índices de interesse e participação política denota. Neto de presos políticos, o fotojornalista João Pina faz parte da geração que não viveu o 25 de Abril. Confessa já se ter abstido de voltar, não por desinteresse mas por falta de alternativa. Enquanto emigrante a residir na América Latina, sente a dificuldade de participar nas eleições que ocorrem no seu País. Acusa o sistema de não conceder flexibilidade para os que se encontram no estrangeiro, sem residência certa, como no seu caso. “Há muita burocracia. Tenho que me recensear seis meses antes das votações não sabendo se me vou manter naquele local”. Nas eleições em que se decidiu a legalização do aborto, às quais não conseguiu ficar indiferente, viu-se obrigado a viajar dos Estados Unidos para Lisboa de propósito para exercer o seu direito de voto.

“Geringonça” trouxe a discussão politica para o café

Olhando para o quadro geral, João Pina nota que na Argentina os jovens se interessam muito mais pela política. “Em Portugal, o tesão político que emergiu no pós-revolução esmoreceu”. Ainda assim, o fotógrafo remete para uma certa mudança que sentiu acontecer há dois anos, quando surgiu a “Geringonça”. “De repente, toda a gente começou a discutir política com os amigos no café”.

Há uma questão que então se eleva: será que a Comunicação e o Marketing serão a chave para aproximar a política do eleitorado mais jovem? João Pina pensa que sim. Dá os exemplos do slogan “Soares é fixe”, que marcou a campanha presidencial de Mário Soares em 1986, ou de quando Miguel Portas distribuiu “mortalhas” no Bairro Alto na altura da fundação do Bloco de Esquerda.

Neste instante, alguém contesta entre o público: “Acho inaceitável a leveza com que estão a discutir este assunto tão sério!” A crítica não é acatada pelos que estão no palco que neste momento ouvem as opiniões dos que estão na plateia. Por fim, uma mulher pede o microfone para partilhar a sua visão. “Os políticos atualmente são meros agentes económicos. Os partidos só servem para elencar favores e interesses de empresas e organizações”.

Cara a Cara com deputados
Entretanto, no primeiro andar do Cinema São Jorge ouve-se uma campainha. Começou o “Cara a cara com os deputados”. São muitos os que fazem fila em frente às seis mesas redondas de pé alto, nas quais que se encostam os representantes de partidos políticos portugueses que aceitaram o desafio. São eles Mariana Mortágua (Bloco de Esquerda), André Silva (PAN), Rita Rato (PCP), Heloísa Apolónia (PEV), Ana Rita Bessa (CDS) e Sérgio Azevedo (PSD). Só falta Isabel Moreira do PS.

Os participantes têm cinco minutos para uma conversa de um para um com os deputados, antes de soar o toque e rodarem para outra mesa. Não se acanham com papas na língua. Em frente a Rita Rato está Gonçalo Correia, estudante de Mestrado em Ciências da Comunicação e da Cultura na Universidade Católica, que pesquisou sobre cada um dos deputados e anotou num bloco todas as questões que queria esclarecer. Antes que faça qualquer pergunta, a porta-voz do Partido Comunista quer saber, se não foi indiscrição, o custo das suas propinas, já que frequenta uma instituição privada. O estudante indica que são mais de 400 euros por mês e atira a pergunta. Sabe que a deputada é alentejana e não hesita: “É por isso que é comunista?”. Rita Rato sorri e acaba por associar a sua ideologia política à ligação que tem desde pequena com o partido, recordando a primeira vez que ouviu ópera, aos oito anos, num evento de livre acesso disponibilizado pela sua freguesia, situada no Alentejo e liderada pelo PCP.

“E é verdade que o vosso salário vai para o partido?”, continua o estudante. A deputada defende que é uma questão de manutenção da independência do partido. Ela e os camaradas auferem o mesmo que recebiam na vida profissional antes de ingressarem na atividade política e a diferença entre os dois salários segue para o partido. “Em todo o caso, se tivermos que nos deslocar a algum sítio, por exemplo, o partido assume os custos”, sublinha Rita Rato.

Sem pausas, porque o tempo se está a esgotar, a conversa salta para o machismo na sua sociedade portuguesa. A deputada considera-se uma “feminista marxista” e lembra que, não obstante os direitos já conquistados, ainda há muita luta face à “subordinação e dependência económica das mulheres”.
E soa o toque. As meninas da organização têm que intervir nas conversas de esgotar fôlegos que se prolongam além do tempo estipulado, fazendo lembrar os discursos na Assembleia da República. “Tem que terminar!” Teresa Mascarenhas é funcionária pública e apenas se inscreveu para falar com Ana Rita Bessa. Quer saber se acha boa ideia impor o voto obrigatório, medida que a deputada do CDS não põe totalmente de lado, em prol da consciencialização das pessoas para a importância do voto. “É como a questão das quotas para as mulheres”. Por outro lado, para si o problema não se restringe apenas aos eleitores e insiste que também os políticos se “baldam” aos seus deveres políticos para com a sociedade. Olha à sua volta e ataca retoricamente: “Onde está aqui o PS representado?”.

Da marcha LGBT à União Europeia

A campainha toca pela última vez. Como não haverá mais rondas, Raquel, Joana, Marta e Margarida juntam-se em torno de Marina Mortágua. São estudantes. Duas ainda frequentam o Ensino Secundário, uma quer entrar este ano na universidade e a quarta já é caloira. Querem falar, em primeira instância, sobre as políticas do BE para a comunidade LGBT. A bloquista afirma que o movimento está a virar para as questões de identidade de género, com leis “muito avançadas neste sentido”, como a que permite mudar o nome no B.I. sem se ter que obrigatoriamente mudar de sexo. O que não quer dizer que já não há homofobia em Portugal. Pelo que, há uma situação em particular a evitar, relacionada com o capitalismo e a sua sobreposição à discussão sobre o problema, refere a deputada. “Quando a marcha começa a ser patrocinada pela Coca-Cola e, de repente, a missão é engolida pelo mercado, percebem?”

Quanto à sua posição sobre a União Europeia, esclarece: “O grupo europeu está sempre a ser chantageado por órgãos como a Comissão e o Banco europeus, que ninguém elegeu. Mas o BE sempre achou que poderíamos fazer a mudança dentro de uma Europa democrática. Depois, veio a crise e vimos como a Grécia teve que sair da esquerda para permanecer na União Europeia. E este tipo de imposição verifica-se com outras questões, como os refugiados, etecetera”.

O frente a frente termina com uma questão sobre medidas para os produtores de leite e carne. Mariana Mortágua pega no telefone para ligar ao colega que trabalha diretamente com o assunto. Sem obter resposta, troca de mail com as jovens a fim de agendar um almoço na Assembleia da República para falarem com a minúcia que os cinco minutos deste encontro não permitem.

Lá em baixo, dentro do anfiteatro, já se debate o voto obrigatório com a pronúncia brasileira do jornalista Jair Rattner e da cantora Luana Cozetti. Há 21 países no mundo onde o voto é obrigatório e o Brasil é um deles. A imposição, no entanto, não significa uma abstenção nula, de acordo com dados apresentados pelo moderador, e co-organizador do festival, Rui Oliveira Marques. Em 2014, nas últimas eleições realizadas por terras de Vera Cruz, a abstenção chegou aos 19,4%.

Dia 2

Sábado. 21 de abril. Sofia Wheeldon, 10 anos, abdicou da manhã de sono prolongado para participar no Atelier dinamizado pelo Serviço do Museu da Presidência da República no Festival Política. Acabou de desenhar a bandeira de Portugal. Explicaram-lhe o significado dos vários símbolos que a compõem mas ela já sabia de tudo. Aprendeu, porém, quais os deveres do Presidente da República e que se deve votar para “os outros não escolherem as regras por nós”.


Também Rute Serra trouxe o filho Tiago, de oito anos, e dois dos seus amigos, com oito e seis anos, uma vez que considera ser necessário “purificar” a política incutindo essa missão nos mais novos. Findo o workshop, preparam-se para assistir à peça de teatro “Nha casa, nha bairro (como se constrói o futuro)”, protagonizada por crianças de territórios sensíveis do concelho de Loures. A performance encerra a manhã dedicada aos miúdos, ainda que as tintas e as artes continuem a dominar a tarde.


Depois do almoço, ao fundo do edifício situado em pela Avenida da Liberdade começa-se a imprimir serigrafias. Um trabalho iminentemente manual do qual saem cópias das ilustrações de cinco autores convidados para retratar o impacto da abstenção na vida política portuguesa. No desenho de Carolina Maria vêem-se cidadãos a misturarem-se com paredes e chão. “Estão a transformar-se em não-cidadãos”, descreve.

Informação é Poder. Transparência combate corrupção

No mesmo espaço, a azáfama dos que rodeiam a mesa de serigrafia para tirar fotografias contrasta com a concentração dos que participam no “mini hackaton”. Cerca de uma dezena de pessoas, sentadas em frente a computadores, constroem uma “timelime” interativa que apresenta, por ordem cronológica, os eventos que marcaram o dia da revolução portuguesa, em 1974. Recolhem toda a informação que encontram online, seja visual, em áudio ou texto, e organizam-na de forma a descrever, minuto a minuto, o que aconteceu naquele dia histórico, desde a transmissão da música “E depois do Adeus” à rendição do regime.

A sessão de trabalho é coordenada por Ana Isabel Carvalho e Ricardo Lafuente, designers que assumiram em 2010 a missão de construir plataformas digitais em que simplificam informação relevante para o público, organizando, para esse fim, os encontros “Date With Data” no Porto.
“Informação é poder”, reitera Bárbara Rosa, jurista de direito público e ativista contra a corrupção – o que a levou também a organizar este festival. Está na Sala 2 perante uma plateia perplexa com as suas palavras. Fala sobre a Lei do Acesso a Dados Administrativos (LADA) salientando o que muitas pessoas parecem não saber ou não se recordarem com muita frequência: não há nenhuma informação administrativa à qual lhes possam negar o acesso.

O espanto justifica-se pela “cultura de segredo” que ainda se vive em Portugal, onde as organizações resistem à transparência que é, na opinião da jurista, a melhor arma de combate à corrupção. Neste sentido, a ativista apela a uma maior pressão por parte dos cidadãos. “Não podemos estar à espera que a iniciativa seja tomada de um só lado. Cabe a nós, enquanto cidadãos, querer saber mais sobre até que ponto os nossos direitos estão a ser cumpridos”.

Do cinema às artes performativas, da pintura ao jornalismo. O ecletismo do Festival Política mostra que “tudo é política”. A adesão verificada prova, na opinião de Bárbara Rosa, que o problema reside na forma como se transmite a mensagem política. “As pessoas querem saber mais do que os próprios políticos imaginam”. A primeira edição do Festival Política cumpriu as expectativas da organização, que promete dar continuidade a este manifesto da sociedade civil.

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